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Câmara barra MP que previa R$ 17 bi em receitas, e Zanin pode devolver R$ 20 bi ao caixa da Fazenda

Thiago Santos4 min de leitura
Câmara barra MP que previa R$ 17 bi em receitas, e Zanin pode devolver R$ 20 bi ao caixa da Fazenda

A queda da MP 1.303 e o julgamento da desoneração da folha no STF expõem a dependência do governo entre Congresso e Judiciário para sustentar o equilíbrio fiscal.

Após uma série de vitórias no Congresso – como a aprovação do PL 1.087/2025, que criou o IRPFM e estabeleceu a tributação sobre lucros e dividendos, o governo enfrentou, nesta semana, uma de suas maiores derrotas fiscais.

A Câmara dos Deputados decidiu deixar caducar a Medida Provisória 1.303/2025, que previa novas regras de tributação sobre investimentos, fintechs e apostas esportivas. O texto, relatado por Carlos Zarattini (PT-SP), fazia parte da estratégia do Ministério da Fazenda para substituir o aumento do IOF e gerar R$ 17 bilhões adicionais em arrecadação no próximo ano.

Mas o impacto total da medida era ainda maior: R$ 46,5 bilhões no orçamento, somando R$ 31,6 bilhões em receitas frustradas e R$ 14,9 bilhões em cortes de gastos que agora não serão implementados.

O que previa a MP 1.303

A MP buscava simplificar e ampliar a base tributária, com medidas como:

  • Aumento da alíquota do IR sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP) de 15% para 18% (a proposta inicial previa 20%);
  • Unificação da alíquota de 18% para a maioria dos investimentos financeiros e ganhos de capital;
  • Regras mais rígidas de compensação tributária, para limitar o uso de créditos fiscais;
  • Cobrança retroativa de apostas esportivas (“bets”), que atuaram antes da regulamentação do setor, com expectativa de arrecadar R$ 5 bilhões;
  • E revisão do seguro-defeso, com redução de despesas.

Mesmo com recuos, como a manutenção da isenção de LCIs e LCAs e a retirada da taxação imediata sobre as bets , o texto foi rejeitado por 251 votos a 193, liderado por partidos do Centrão e bancadas empresariais.

O governo argumentava que a proposta era fundamental para “sustentar o equilíbrio fiscal”, mas o clima político pesou mais: as bancadas produtivas alegaram que o texto “penalizava investimentos e inovação”.

O outro lado: o STF e o espaço fiscal

Enquanto o Congresso derrubava a MP, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), pautou para 17 de outubro o julgamento da ação que questiona a prorrogação da desoneração da folha de pagamentos, medida que representa renúncia de R$ 20 bilhões anuais.

Caso o governo vença no STF, a reversão dessa renúncia compensaria parte das perdas com a MP 1.303, mostrando o quanto o equilíbrio fiscal do país tem se apoiado em decisões judiciais tanto quanto em votações parlamentares.

Essa coincidência escancara uma nova dinâmica: o Executivo vem encontrando no Judiciário um apoio que nem sempre encontra no Legislativo.

Ainda que legítimo, esse movimento reforça a dependência de soluções pontuais em vez de um consenso duradouro sobre a política fiscal.

Conclusão

A decisão da Câmara abre um buraco de R$ 46,5 bilhões nas contas públicas, entre receitas frustradas e cortes que não sairão do papel. O governo já estuda bloquear até R$ 10 bilhões em emendas parlamentares e buscar novas fontes de arrecadação para conter o impacto.

Mesmo com vitórias recentes, o desafio permanece: como ampliar receitas sem desgastar a relação com o Congresso nem sobrecarregar o setor produtivo?

Com pressões de gasto em alta e arrecadação aquém do esperado, cumprir a meta de déficit zero até 2026 exigirá mais do que ajustes técnicos , será preciso coordenação política, previsibilidade e eficiência no gasto público.

O equilíbrio fiscal não se garante por coincidências entre os Poderes, mas por planejamento, confiança e diálogo. E esse talvez seja o verdadeiro teste do governo daqui em diante.

Thiago Santos da Silva

Contador e Auditor Independente (CNAI 6716) | Sócio da Contrato Consultoria

Doutorando em Ciências Contábeis – FUCAPE | Conselheiro da ATRIAL

Fontes:

  • O Estado de S. Paulo – “Câmara derruba MP alternativa ao IOF, e governo prevê rombo de mais de R$ 40 bi nas contas” (08/10/2025).
  • CNN Brasil – “Em derrota para governo, Câmara retira de pauta MP que renderia R$ 17 bi” (08/10/2025).
  • InfoMoney – “Comissão aprova MP que eleva para 18% alíquota sobre JCP; texto vai a plenário” (07/10/2025).
  • Brasil 247 – “Zanin levará ao plenário do STF ação contra desoneração da folha” (08/10/2025)
  • Ministério da Fazenda e Agência Câmara – Relatório de impacto fiscal e justificativas técnicas da MP 1.303/2025.

Publicado originalmente no Medium.

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